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App Chinês que cria deepfakes revive polêmica da invasão de privacidade

Por Luana Coggo e Virginia Mencarini

Foto: Reprodução/Showmetech

No último mês, a web vivenciou um debate acirrado sobre a questão da privacidade nos novos Apps de interação virtual. O aplicativo “Zao”, com apenas uma selfie, é capaz de substituir e inserir os rostos dos usuários em cenas icônicas do cinema, apresentando um realismo impressionante. Apesar do entretenimento durar somente 30 segundos, as consequências para quem usufrui da plataforma aparentam ser mais duradouras. A técnica do DeepFake (síntese de imagens ou sons humanos baseada em técnicas de inteligência artificial) desencadeou o rápido interesse pelo produto final da rede social Momo, criadora do App, fazendo com que os usuários aceitassem os termos de uso nebulosos propostos, o que representava uma invasão de privacidade e roubo de dados. A empresa reivindicava direitos “gratuitos, irrevogáveis, permanentes, transferíveis e passíveis de royalties” para qualquer material carregado no aplicativo.

A polêmica criou força quando os usuários inundaram a AppStore com críticas e avaliações negativas do aplicativo. Depois de ter recebido mais de 4000 comentários pejorativos, o “Zao” foi avaliado, em média, com 1,9 estrela na internet. Em contrapartida, a companhia se justificou: "Entendemos a preocupação com a privacidade. Recebemos o feedback e corrigiremos os problemas, mas precisaremos de um pouco mais de tempo", indicou uma publicação oficial na rede social chinesa Weibo. Além disso, o “Zao” garantiu que quaisquer selfies e vídeos carregados no aplicativo não serão usados para nenhum fim além do aprimoramento do programa.

Políticas de privacidade potencialmente abusivas são recorrentes em aplicativos gratuitos e com rápida difusão. Para Jorge Vera, atuante no planejamento de projetos Microsoft e especialista em tecnologia da informação, os termos de uso não são bem divulgados e acabam gerando problemas, pois “inocentemente, a maioria das pessoas clicam em links e ofertas, ou até mesmo brincadeiras e jogos, e não estão cientes dos dados que estão sendo compartilhados”. O especialista acrescenta que os usuários também possuem sua parcela de culpa ao usufruírem gratuitamente de algum serviço, utilizando login integrado com suas redes sociais para acesso.

Ao ingressarem nesses aplicativos, as pessoas tendem a acreditar que a invasão de privacidade se estende apenas ao meio virtual, porém as consequências são mais graves do que o imaginado. Sequestros, por exemplo, podem ser arquitetados com base no hackeamento de dados que expõem a localização do dispositivo, consequentemente a do usuário. Através da telemetria (arte de medir distâncias), é muito simples saber quais são as atividades do possível alvo no dia a dia, a partir de informações disponibilizadas pelo aparelho. Dados pessoais como CPF, RG e até mesmo fotos íntimas também estão sujeitas à invasão de privacidade.

Jorge Vera diz que, para evitar esse tipo de invasão e seus efeitos é preciso “ter um bom antivírus em sua máquina e celular, além de trocar suas senhas regularmente.” O especialista também alerta sobre a importância de uma leitura atenciosa sobre os termos de uso, que explicitam quais dados serão coletados na hora da utilização do aplicativo. Atualmente, a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), tenta barrar os possíveis perigos da invasão, porém, devido à existência dos crackers (hackers mal intencionados), a medida acaba não sendo totalmente eficaz. Outra questão, é que a lei apenas protege quem recusa as proposições feitas pelos termos de uso, ou seja, aqueles que aceitam as condições sem ler devidamente, não terão seus direitos assegurados.

Diante desse cenário, é possível deduzir que no futuro, empresas e hackers que queiram invadir a privacidade dos usuários a fim de um lucro ou objetivo maior tentarão encontrar novas maneiras para driblar o sistema de proteção existente, cada vez mais debatido e valorizado. Resta saber o quanto a população está disposta a arriscar, além de seus próprios dados, em prol da curiosidade e entretenimento.